sábado, 19 de fevereiro de 2011

Família toda de carona

Papai, mamãe, irmão mais velho, bebê recém-nascido, avós e até a bicharada. Todo mundo foi parar na traseira dos carros, em adesivos de bonequinhos com traços infantis que representam os membros da família. É só dar um passeio rápido nas ruas para descobrir como são os lares do donos dos veículos a nossa volta. A moda espalhou-se rapidamente por todo o Brasil e é bem provável que você já tenha pensado no assunto. Seja porque gostou da ideia ou porque nem cogita expor seus filhos dessa maneira.

Sem imaginar a repercussão que teria, o designer Germano Spadini criou seu primeiro adesivo da família há três anos, ao descobrir que sua esposa estava grávida do primeiro bebê. Os amigos e familiares gostaram da novidade e, logo, Spadini percebeu que ali estava uma boa oportunidade de negócio. “Quando fiz, não tinha visto em lugar nenhum. Não sei se fui o criador”, revela.

No mercado desde 2003, sua empresa especializada em adesivos decorativos Job Design Criaativo, hoje vende cerca de 10 mil autocolantes de bonequinhos por mês. Com preços variando de R$ 2 a R$ 5 cada unidade, a procura é tanta que ele lançou no início de 2011 duas novas linhas, incluindo personagens cadeirantes, obesos, negros e orientais. Também é possível encomendar um pai country, uma mãe malhada e um avô churrasqueiro, por exemplo. Além da loja física no bairro do Tatuapé, em São Paulo, e da loja virtual, o empresário também distribui para casas de decoração, de artigos infantis e de acessórios automobilísticos.

O empreendedor conta que o kit de maior venda é formado pelo casal, com duas crianças e um bicho. “Mas já fizemos de tudo, até uma família de mãos dadas com Jesus”, diz Spadini, que chegou a confeccionar um pai falecido (o bonequinho tinha asas de anjo, a pedido da esposa viúva), um casal de cabeleireiros gays e uma família enorme, com mãe, pai, 4 filhos, avô, avó e 7 animais. Recentemente, a empresa começou a fabricar os autocolantes em tamanho real, para aplicar nas paredes de casa.

Mas como todo modismo, essa mania também tem pontos positivos e negativos. Para o psicólogo e professor da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Antonio Carlos Pereira, as pessoas precisam se comunicar com o mundo e compartilham o seu dia a dia com os outros desde o tempo das pinturas rupestres nas cavernas. Os adesivos são mais uma forma de comunicação e, segundo o psicólogo, as crianças vêem essa nova moda como uma brincadeira. Portanto, usar os autocolantes para personalizar o veículo ou como diversão pode ser uma atividade lúdica para adultos e crianças.

Foi com esse espírito de brincadeira que Mirian Mezzanotte Barneze, 47 anos, decorou a traseira de seu automóvel com 14 adesivos. Além dela, do marido e das três filhas, estão representados as três cachorras e os seis gatos que dividem o teto com eles em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Apesar de não achar que está expondo sua família, ela reconhece que os adereços chamam a atenção por onde o veículo passa. “Ainda quero colocar o aquário”, brinca Mirian, que até já foi reconhecida no trânsito por uma amiga por causa dos enfeites.

Mas saiba que desfilar com a família toda grudada atrás do carro não é suficiente para demonstrar orgulho aos seus filhos. As crianças percebem que os pais amam e sentem orgulho através das atitudes tomadas no cotidiano e na convivência em casa. Pereira acredita que não é preciso demonstrar esses sentimentos para o público externo e lembra que a necessidade de exposição é ainda maior nas grandes cidades. “Chega a ser um paradoxo. Você não conversa nem com os vizinhos, mas abre sua vida na internet para gente que nem conhece”.

A assessoria de imprensa da Polícia Militar de São Paulo afirma que não existe nenhuma estatística que relacione o uso dos autocolantes com qualquer tipo de crime. Ainda assim, o bom senso, como quase tudo em relação aos filhos, é o que faz diferença. Chen Gilad, diretor-executivo do grupo de segurança Haganá, concorda. Ele acredita que os adesivos não transmitem dados suficientes para bandidos planejarem um assalto ou sequestro e lembra que redes sociais, como Orkut e Facebook, contêm informações muito mais detalhadas. “É preciso ter em mente que qualquer informação que você passa pode ser utilizada por alguém mal intencionado. Mas se você quiser esconder tudo, não vai viver.” E na garagem da sua casa, essa moda já colou?


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